Ética Pastoral

Divórcio e novo casamento: o que a Bíblia ensina

2 de setembro de 202611 min de leitura Pastor Rivail Sousa

Este é dos temas mais delicados que um pastor enfrenta, porque nunca é abstrato. Do outro lado da mesa há sempre uma pessoa real, com uma história real, e frequentemente com uma dor que nenhuma resposta doutrinária resolve sozinha.

Ainda assim, é preciso saber o que o texto diz. Acolhimento sem doutrina vira omissão, e doutrina sem acolhimento vira crueldade.

O ponto de partida é a criação

Quando questionado sobre divórcio, Jesus não começou pela lei de Moisés. Voltou ao princípio: Deus os fez homem e mulher, o homem deixa pai e mãe, e os dois se tornam uma só carne. E concluiu que o que Deus ajuntou não o separe o homem (Mt 19.4-6).

Essa é a norma. Tudo o que se discute depois são exceções a ela, e exceção nunca deve ser transformada em regra.

A cláusula de exceção

“Qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de infidelidade, e casar com outra, comete adultério.” Mt 19.9

A palavra grega traduzida por infidelidade é porneia, termo amplo que abrange imoralidade sexual em geral, não apenas o adultério consumado. Jesus reconhece que a quebra do pacto sexual rompe algo estrutural na aliança matrimonial.

Importa notar o que o texto não diz. Não determina que o traído deva divorciar-se. Não descreve o divórcio como dever, mas como permissão. E não anula em nada o chamado ao perdão e à restauração, que continua sendo o caminho mais excelente onde houver arrependimento genuíno.

A segunda exceção

Paulo trata de uma situação que Jesus não abordou: o casamento em que apenas um dos cônjuges se converteu.

“Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão ou irmã não está sujeito à servidão.” 1Co 7.15

A orientação é clara: o crente não deve provocar a separação, mas se o incrédulo escolhe partir, o crente não fica preso. A expressão sobre não estar sujeito à servidão é entendida pela maior parte dos intérpretes como liberação do vínculo.

Sobre o novo casamento

É aqui que as posições se dividem, e o debate é antigo. Alguns entendem que o divórcio, mesmo legítimo, não autoriza novo casamento enquanto o outro viver. Outros compreendem que, se o vínculo foi legitimamente rompido, a liberdade para casar novamente decorre disso.

A leitura que me parece mais coerente com o conjunto é a segunda: quando o divórcio ocorre nas hipóteses que a própria Escritura reconhece, a parte inocente não permanece obrigada a uma solidão imposta. A alternativa produziria uma penalidade perpétua sobre quem sofreu a infidelidade, o que dificilmente reflete o coração de Deus revelado nos Evangelhos.

O que sempre se perde nessa discussão. Deus declara odiar o divórcio (Ml 2.16), e essa palavra permanece. Mas o mesmo profeta explica por quê: porque cobre de violência a própria veste, porque há vítimas.

Deus odeia o divórcio pelo que ele destrói — não odeia o divorciado. Confundir as duas coisas transformou muita igreja em tribunal e afastou pessoas que precisavam justamente do contrário.

Como a igreja deve agir

Ensinar antes, não só julgar depois. A maior parte do trabalho pastoral sobre divórcio deveria acontecer anos antes dele — no preparo para o casamento, no acompanhamento dos casais, na cultura de comunidade que não deixa ninguém adoecer sozinho.

Distinguir situações. Não é justo tratar da mesma forma quem abandonou a família e quem foi abandonado, quem traiu e quem foi traído, quem se divorciou antes da conversão e quem o fez depois de anos na fé. Cada história exige exame próprio.

Nunca exigir a permanência em situação de violência. Nenhum texto bíblico obriga alguém a permanecer sob agressão física ou risco de vida. A separação para proteção é medida legítima, e o pastor que a nega assume responsabilidade grave.

Restaurar quem se arrepende. A igreja que perdoa todos os pecados menos este ensina, na prática, uma doutrina que não está nas Escrituras.

Manter juntas a santidade do matrimônio e a misericórdia para com o quebrantado é exatamente o que Jesus fez — e é a tarefa mais difícil e mais necessária de todo ministério pastoral.

Pastor Rivail Sousa
Pastor Rivail Sousa Pastor, teólogo e professor de Escatologia, Hermenêutica e Teologia Sistemática. Autor de mais de 40 obras. Pastor presidente da AD Ministério Getsêmani, em Guarulhos–SP.