É a pergunta que nenhuma família evita, e que quase sempre chega ao pastor no pior momento possível: onde está a pessoa que acabou de partir?
A Bíblia responde, e responde com mais clareza do que se costuma supor. O que dificulta é que a resposta muda conforme o ponto da história da redenção em que estamos.
O vocabulário importa
O Antigo Testamento usa sheol para a região dos mortos. O Novo Testamento grego usa hades para o mesmo lugar — e geenna para o destino final de condenação, que é outra coisa. Confundir essas palavras produz boa parte da confusão popular sobre o assunto.
Sheol e hades descrevem um estado intermediário: entre a morte física e a ressurreição do corpo. Geena descreve o destino definitivo, depois do juízo final. São etapas distintas.
Antes da ressurreição de Cristo
O quadro mais detalhado está na narrativa do rico e Lázaro, em Lucas 16.19-31. Ali existem duas regiões, ambas conscientes, separadas por um grande abismo: uma de consolo, chamada seio de Abraão, e outra de tormento.
Note o essencial: em ambas há plena consciência. Há memória, percepção, diálogo e sofrimento. Ninguém está dormindo.
O que mudou com a ressurreição
Paulo declara que Cristo, ao subir, levou cativo o cativeiro (Ef 4.8), e que estar ausente do corpo é estar presente com o Senhor (2Co 5.8). Aos filipenses, escreve que partir e estar com Cristo é incomparavelmente melhor (Fp 1.23).
Nenhum desses textos admite um período de inconsciência. Ao contrário: o valor da partida está justamente em estar com Cristo — o que exige consciência para ser melhor do que permanecer.
Ao ladrão arrependido, o Senhor foi ainda mais direto: hoje estarás comigo no paraíso (Lc 23.43). Hoje, não depois de milênios de inconsciência.
Sobre o sono da alma
A doutrina de que o morto permanece inconsciente até a ressurreição apoia-se sobretudo nos textos que chamam a morte de sono. Mas essa é uma figura de linguagem aplicada ao corpo, não ao espírito — e a razão é evidente: aos olhos de quem fica, o corpo repousa. A metáfora descreve a aparência exterior da morte, não o estado interior do que partiu.
Contra essa doutrina pesa o conjunto: a consciência em Lucas 16, a promessa ao ladrão, o desejo de Paulo de partir, e as almas dos mártires que clamam sob o altar em Apocalipse 6.9-10.
O estado intermediário não é o estado final. Mesmo quem está com Cristo agora ainda aguarda algo: a ressurreição do corpo. A esperança cristã não termina numa alma desencarnada no céu — termina em corpos ressuscitados, incorruptíveis, numa terra renovada.
É por isso que o Credo confessa a ressurreição da carne, e não apenas a imortalidade da alma. A salvação alcança o ser humano inteiro.
Uma palavra ao enlutado
Se o seu ente querido estava em Cristo, ele não está em lugar nenhum indefinido. Está com o Senhor, consciente, em consolo, aguardando a ressurreição do próprio corpo.
E a promessa que Paulo deu à igreja em luto continua valendo palavra por palavra: não vos entristeçais como os que não têm esperança (1Ts 4.13). O texto não proíbe a tristeza. Proíbe a tristeza sem esperança. São coisas muito diferentes.