A pergunta divide congregações e constrange pastores. De um lado, quem ensina o dízimo como obrigação inegociável, às vezes com ameaças. De outro, quem o descarta como resquício da lei abolida. As duas posições passam ao largo do que o texto realmente diz.
Antes da lei
O primeiro dízimo registrado antecede Moisés em séculos. Abraão entrega a décima parte dos despojos a Melquisedeque, sacerdote do Deus Altíssimo (Gn 14.20). Jacó, em Betel, faz voto de dar a Deus a décima parte de tudo o que receber (Gn 28.22).
O dado é relevante: em ambos os casos não havia lei mosaica, sacerdócio levítico nem templo. O gesto nasce de reconhecimento, não de obrigação escrita.
Sob a lei
Com a legislação mosaica, o dízimo se torna estrutura. Levítico 27.30 declara que a dízima pertence ao Senhor e é santa. Números 18.21 a destina aos levitas, que não recebiam herança territorial e viviam do serviço do santuário.
Vale notar um detalhe que raramente se menciona: sob a lei havia mais de um dízimo. Somados os do santuário, o das festas e o trienal para os pobres, a contribuição anual do israelita ultrapassava com folga os dez por cento.
O que Jesus disse
O Senhor tratou do assunto uma vez, ao repreender os fariseus por dizimarem a hortelã, o endro e o cominho enquanto negligenciavam o juízo, a misericórdia e a fé. E concluiu:
“Deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas.” Mt 23.23
A frase é decisiva para os dois extremos. Jesus não aboliu a prática — disse que não deveria ser omitida. Mas também recusou que ela funcionasse como substituto da justiça e da misericórdia. Quem usa esse versículo apenas para cobrar dízimo cita metade dele.
Nas cartas apostólicas
Aqui está o dado que sustenta o debate: as epístolas não repetem o mandamento do dízimo para a igreja. O que elas ensinam sobre contribuição é outra coisa.
Primeira Coríntios 16.2 orienta a separar no primeiro dia da semana, conforme a prosperidade. Segunda Coríntios 9.7 estabelece o critério: cada um conforme propôs no coração, não com tristeza nem por necessidade, porque Deus ama a quem dá com alegria. Primeira Coríntios 9.14 afirma que os que anunciam o evangelho devem viver do evangelho.
O princípio permanece — sustento da obra, proporcionalidade, regularidade —, mas o enquadramento muda de imposição legal para oferta voluntária.
Uma síntese honesta. O dízimo não é imposto à igreja como lei cujo descumprimento gera condenação; nenhum texto do Novo Testamento o apresenta assim. Mas continua sendo um parâmetro sábio, antigo, anterior à lei e nunca revogado — e permanece como excelente ponto de partida para quem deseja contribuir com ordem.
O padrão da nova aliança, se algo mudou, foi para mais e não para menos. A igreja de Macedônia deu além de suas posses, e antes disso deu a si mesma ao Senhor (2Co 8.3-5). Quem entrega o coração dificilmente disputa percentuais.
Uma palavra a quem ensina
Duas advertências, dirigidas a lados opostos do púlpito.
Não ameace. Usar Malaquias 3 para sugerir que o não dizimista está sob maldição transforma a graça em contrato e produz contribuintes ressentidos, não adoradores. Deus ama quem dá com alegria, e ninguém dá com alegria sob coação.
Não silencie. Por reação ao abuso, muitos deixaram de ensinar sobre generosidade. O resultado é uma geração que sustenta a obra por impulso, sem disciplina, e igrejas incapazes de planejar. O silêncio não corrige o exagero — apenas cria outro problema.
Entre a ameaça e o silêncio existe o caminho apostólico: ensinar com clareza, praticar com transparência e deixar a decisão no coração de cada um, diante de Deus.