Escatologia

Quem é o Anticristo segundo as Escrituras

2 de setembro de 202610 min de leitura Pastor Rivail Sousa

Poucas figuras despertam tanta especulação. A cada geração alguém aponta o candidato, e a cada geração o apontado morre sem cumprir a profecia. O problema não está na doutrina — está no método de quem a estuda.

Onde o termo aparece

Curiosamente, a palavra anticristo aparece apenas nas cartas de João, e nunca em Apocalipse. E, quando aparece, é frequentemente no plural.

“Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos se têm feito anticristos.” 1Jo 2.18

João estabelece dois níveis. Há um espírito do anticristo já operante, presente em todo ensino que nega que Jesus é o Cristo vindo em carne (1Jo 4.3). E há uma figura futura, anunciada, que ainda virá.

Os outros nomes da mesma figura

Embora o termo seja joanino, a figura atravessa a Escritura sob outros títulos. Daniel 7.8 e 9.27 falam do chifre pequeno que subjuga reis e do príncipe que firma aliança e a rompe no meio da semana. Paulo o chama de homem do pecado e filho da perdição (2Ts 2.3-4). Apocalipse 13 o descreve como a besta que sobe do mar e recebe poder do dragão.

O que os textos afirmam sobre ele

Reunindo o que está escrito, cinco traços se destacam.

Aparece como solução, não como ameaça. Firma uma aliança, traz uma paz aparente. Ninguém o segue por saber quem ele é; segue-o por acreditar que ele resolve.

Exalta-se ao lugar de Deus. Assenta-se no templo, apresentando-se como Deus (2Ts 2.4). Essa é a marca essencial: não a maldade escancarada, mas a usurpação do lugar que só a Deus pertence.

Opera com sinais. Sua vinda é segundo a eficácia de Satanás, com prodígios e sinais de mentira (2Ts 2.9). Milagre, por si, nunca foi credencial suficiente.

Rompe o pacto. A aliança de sete anos é quebrada ao meio, e é aí que a perseguição se instala.

É destruído pela simples manifestação de Cristo. O Senhor o desfará pelo assopro da sua boca (2Ts 2.8). Não há batalha equilibrada. A oposição termina no instante em que Cristo aparece.

Aquele que o detém

Paulo diz aos tessalonicenses que existe algo — e alguém — retendo a manifestação do homem da iniquidade, e que ele só será revelado quando essa retenção for removida (2Ts 2.6-7).

A força que restringe é, com maior probabilidade, o Espírito Santo operando através da Igreja no mundo. Sendo assim, a remoção da Igreja no arrebatamento explica naturalmente o momento em que a manifestação se torna possível — o que se harmoniza com a compreensão de que a Igreja não atravessa a Grande Tribulação.

Por que não devemos tentar identificá-lo. A lista de apontados ao longo da história inclui imperadores, papas, reformadores, ditadores e praticamente todo líder mundial relevante do último século. Todos morreram. A profecia continua.

Segunda Tessalonicenses 2 diz que ele será revelado no tempo próprio. Revelação é obra de Deus, não resultado de dedução humana. Além disso, se a Igreja é removida antes da manifestação, os cristãos desta era não estarão aqui para vê-lo — o que torna o exercício duplamente inútil.

A aplicação que sobra

Se a marca do Anticristo é a usurpação do lugar de Deus, então o espírito que o anima já atua sempre que algo ou alguém ocupa esse lugar — inclusive dentro da igreja, inclusive dentro de nós.

João não escreveu aquelas cartas para que a igreja calculasse datas. Escreveu para que permanecesse no que ouviu desde o princípio (1Jo 2.24). A melhor preparação contra o engano futuro é o discernimento formado hoje pela Palavra — não a habilidade de apontar nomes.

Pastor Rivail Sousa
Pastor Rivail Sousa Pastor, teólogo e professor de Escatologia, Hermenêutica e Teologia Sistemática. Autor de mais de 40 obras. Pastor presidente da AD Ministério Getsêmani, em Guarulhos–SP.