Gênesis 6.1-4 é um dos textos mais curtos e mais discutidos de toda a Bíblia. Em quatro versículos, fala de filhos de Deus que tomam para si filhas dos homens, e de nefilins que havia na terra naqueles dias. Depois, o texto segue adiante sem explicar nada.
O silêncio abriu espaço para três interpretações principais. Vale examiná-las com honestidade antes de escolher.
Primeira leitura: linhagens de Sete e de Caim
Entende que os filhos de Deus são os descendentes piedosos de Sete e as filhas dos homens são as descendentes de Caim. O pecado seria o casamento misto, apagando a distinção entre o povo da aliança e o mundo.
É a interpretação mais confortável, e a mais difundida a partir de Agostinho. Seu problema é textual: a expressão hebraica bene ha-elohim, filhos de Deus, aparece em outros pontos do Antigo Testamento — Jó 1.6, Jó 2.1 e Jó 38.7 — e em todos designa seres celestiais, nunca descendentes humanos piedosos. Além disso, o texto não menciona Sete nem Caim, e é difícil explicar por que casamentos mistos gerariam gigantes.
Segunda leitura: reis e governantes
Propõe que os filhos de Deus seriam soberanos que se arrogavam títulos divinos e formavam haréns à força. A leitura tem apoio na prática do Oriente Próximo antigo, mas depende de um sentido que a expressão não carrega em nenhum outro lugar das Escrituras hebraicas.
Terceira leitura: seres angelicais caídos
Sustenta que os filhos de Deus eram anjos decaídos que transgrediram os limites da própria natureza. É a leitura mais antiga registrada, presente na tradição judaica anterior a Cristo e na igreja dos primeiros séculos.
O peso decisivo vem de dois textos do Novo Testamento.
“E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia.” Jd 6
Judas menciona anjos que abandonaram a própria habitação e, no versículo seguinte, compara o pecado deles ao de Sodoma e Gomorra, que se entregaram à prostituição indo após outra carne. A analogia é sexual e explícita.
Segunda Pedro 2.4-5 faz a mesma associação, ligando os anjos que pecaram diretamente ao contexto do dilúvio e da geração de Noé — que é exatamente o contexto de Gênesis 6.
E os nefilins?
O termo hebraico vem provavelmente da raiz que significa cair, e o texto os descreve como valentes de renome. Não são necessariamente os filhos da união descrita: o versículo 4 diz que havia nefilins na terra naqueles dias, e também depois — o que sugere que a palavra designa uma categoria de homens poderosos, não exclusivamente uma descendência híbrida.
A palavra reaparece em Números 13.33, no relatório dos espias, para descrever os anaquins de Canaã. Ali, contudo, o próprio contexto revela exagero de homens amedrontados.
Uma objeção que merece resposta. Jesus afirmou que os anjos no céu não se casam (Mt 22.30) — o que parece inviabilizar a terceira leitura.
A observação é justa, mas note a precisão da frase: o Senhor fala dos anjos no céu, que permanecem em sua condição própria. Judas descreve precisamente o oposto: anjos que deixaram sua habitação. O pecado descrito é exatamente a transgressão de um limite que, mantido, tornaria a união impossível.
Por que o texto está ali
Qualquer que seja a leitura adotada, a função da passagem no relato é clara. Ela vem imediatamente antes da declaração de que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra (Gn 6.5), servindo de última evidência de uma corrupção que atravessou todos os limites — até os que separam ordens de criaturas.
É essa corrupção que o dilúvio responde. O texto não existe para satisfazer curiosidade sobre gigantes, mas para justificar o juízo e preparar a graça que se manifestará em Noé.